George Roerich (1902 – 1960)

George aos 5 anos de idade. Acervo do Museu Roerich de Nova Iorque, EUA.

George Roerich (Yuri Nikolayevich Roerich), o filho mais velho de Helena e Nicholas Roerich, nasceu em Okulovka, na região de Novgorod, Rússia, no dia 6 de agosto de 1902. Lingüistas, cientista, pesquisador, arqueólogo, critico de arte e historiador, George Roerich falava mais de 30 idiomas e dialetos (europeus e asiáticos) e se tornou um dos grandes orientalistas do século 20.

George cresceu em São Petersburgo e, desde de menino, mostrou interesse por história e ciência militar. Ele estudou no renomado Ginásio de Karl May, o qual era conhecido na época por ter formado grandes personalidades voltadas para cultura e ciência. Aos 15 anos, George iniciou seus estudos de Egiptologia com o famoso egiptologista e orientalista B. Tourayev e foi iniciado na lingua Mongol pelo professor A. Roudnev (Russia, 2011).

Apos o ginásio, George deu continuidade aos seus estudos em pretigiosas universidade no ocidente. Primeiramente, em 1919, ingressou na Universidade de Londres, mas especificamente no Departamento Hindu-Iraniano da Escola de Línguas Orientais. Posteriormente, com a mudança da Família Roerich para os EUA em setembro de 1920, George se tornou aluno da Universidade de Harvard, no Departamento de Filosofia Indiana, e estudou as línguas Pali e Chinesa. Apos finalizar seu Bacharelado, George continuou seu estudo de língua Chinesa e Persa na Escola de Línguas Orientais da Universidade de Paris, onde obteve seu Titulo de Mestrado em Filosofia Indiana.

Ainda na Franca, no Departamento de Estudos Ásia Central, Indianos e Mongol-Tibetanos da mesma Universidade, o primogênito da Família Roerich trabalhou diretamente com renomados orientalistas do seu tempo, tais como, Professor Pellio e S. Levi (Russia, 2011; Índia, 2011).

Sua notável dedicação ao estudo das línguas orientais e à pesquisa das culturas tradicionais da Ásia Central e do Extremo Oriente foram de fundamental importância para a audaciosa empreitada realizada pela Família Roerich: a magnífica Expedição à Ásia Central. Em toda a jornada, George foi o principal porta-voz e interprete da expedição.

Numa expedição cientifica sem precedentes, até então, durante cinco anos (1925 – 1928) a Família Roerich cruzou 35 passagens entre as montanhas do Altai e do Himalaia em altitudes de até 6.500 metros (EUA, 2010; Índia, 201). George destacou o objetivo da expedição em 3 pontos principais (India, 2011).

Nicholas e George Roerich durante a expedicao ‘a Asia Central, Ladah, 1925. Acervo do Museu Roerich de Nova Iorque, EUA.

“A expedição coordenada por Professor Nicholas Roerich e organizada pelo Museu Roerich de Nova Iorque e pelo Centro Internacional de Arte“Corona Mundi” teve como objetivo principal delinear um panorama único das terras e nações da secreta Ásia.

O segundo objetivo foi estudar as possibilidades de nova escavação arqueológica e, dessa forma, prepara os caminhos para as futuras expedições na região.

O terceiro objetivo foi a pesquisa das línguas e dialetos da Ásia Central e a coleta de uma grande coleção de objetos que retratem a cultura espiritual dessas nações.

A Central Ásia tem sido um berço e lugar de encontro de varias civilizações asiáticas, os vales montanhosos inacessíveis, ate’ nossos dias, preservou muito material lingüístico e etnográfico de valor inestimável, o qual pode ajudar a reconstruir o passado da Ásia”.

Darjeeling, India

No dia dois de dezembro de 1923, a Familia Roerich desembarcou em Bombay (litoral leste da Índia) e atravessou o pais em direção a Darjeeling, cidade do estado do Bengal Oeste, (nordeste), passando por varias cidades que testemunharam o nascimento e florescimento do Budismo e do Hinduismo, tais como Benares (Varanasi), a beira do sagrado rio Ganges, Agra e Calcutá (sudoeste da India). Apos percorrer quilometros de floresta úmida rodeada por plantações de chá preto nas proximidades de Darjeeling, os Roerichs avistaram, no final de dezembro, o sagrado Kanchenjunga com 8.586 m (a terceira montanha mais alta do mundo) despontando sobre o vale de Sikkim. Iniciava-se ali a Grande Jornada pelas montanhas brancas do Himalaia, o Teto do Mundo (Decter, 1997; Drayer, 2005).

Em Sikkim, a Família Roerich permaneceu durante um período a fim de coletar extensivamente informações e planejar a expedição. Devido ao seu conhecimento de estratégia militar, George organizou todos os detalhes referentes a seguranca da expedição e contratou os caravaneiros e funcionários de apoio para expedição (Russia, 2011).

Outro aspecto positivo da temporada em Talai-Pho-Brang (Sikkim), foi a intensa interação com os lamas e

Montanha Kanchenjunga 8586 m, Sikkim, India

a cultura Budista. Em pouco tempo, os Roerichs se acostumaram a acordar em plena noite com os cânticos dos lamas, em procissão, trazendo oferendas. Esse foi o ambiente propicio, no qual George pode praticar melhor a língua Tibetana, fundamental para a comunicação com a população local e para a coleta de dados científicos durante a expedição no interior da Ásia. Alem disso, o jovem George pode tambem explorar os monastérios da região, bem como, desfrutar da companhia do lama M. Mingyur, um renomado erudito de literatura Tibetana e professor de literatura tibetana de muitos dos Tibetologistas europeus da época (Drayer, 2005). Como fruto dessa imersão no budismo, aos 23 anos, George publicou seu primeiro livro dedicado a Arte Tibetana, “Tibetan Paintings” (Pinturas Tibetanas).  Anos depois (2002), a obra foi reedidata em Moscou, a qual foi altamente apreciada pelo o Dalai Lama XIV, Sua Santidade, pelo valioso trabalho de resgate histórico e cultural do budismo tibetano (Russia, 2011).

Ao final de toda a expedição à Ásia Central (1928), a Família Roerich coletou um vasto material de natureza geografica, arqueológica, etnológica e lingüística de regiões da Ásia até então não exploradas. Juntamente com seus mapas e fotografias, George criou uma base de dados para sua monografia chamada “Trails to inmost Ásia” (1930), a qual concedeu ao pesquisador um lugar de destaque entre os mais famosos orientalistas da época (India, 2011; Rússia 2011).

George no Insituto de Pesquisa Urusvati, no inicio dos anos 30, Acervo do Museu Roerich de Nova Iorque, EUA.

Como o suporte de cientistas da Índia, EUA e Europa, no dia 24 de julho de 1928, Nicholas e George Roerich formaram o Instituto Himalaiano de Pesquisa URUSVATI in Darjeeling.  Em Decembro de 1928, a Família Roerich se mudou para a região oeste do Himalaia, ao norte da Índia, mais precisamente, no vale de Kullu, no vilarejo de Naggar, a 1760 metros de altitude. O vale de Kullu é a mais antiga passagem da Índia para o Tibet, ao longo do Rio Beas, passagem para Kailas (Tibet), Ladakh (Kashmir, Índia), Chotan (oeste da China), e de lá, através do deserto de Gobi, se chega a Altai (cordilheira da Ásia Central que ocupa o território da Rússia, China, Mongólia, Cazaquistão).  De acordo com a lenda, Buddha e Padma Sambhava caminharam pelo Vale de Kullu. Arjuna e outros Pandavas lá viveram. E nas margens do Rio Beas , Saint Vyasa compilou o Mahabharata e as Puranas. Por tudo isso, o Vale de Kullu é referido pela literatura indiana e tibetana como o “Vale dos Deuses” (Índia, 2011).

Durante quase 20 anos, a Familia Roerich viveu e trabalhou incessantemente em Naggar, no Vale de Kullu. Sob o impulso da criatividade ardente, o Instituto Himalaiano de Pesquisa URUSVATI unificou a pesquisa cientifica contemporanea com a antiga tradição oriental, ao se dedicar a investigações no campo da Biologia, Medicina, Botânica, Zoologia, Bioquímica, Farmacologia, Astrofísica e ciências correlatas. Sob a Direção de George Roerich, o Instituto URUSVATI estabeleceu parcerias com mais de 200 Universidades e Instituições no mundo inteiro. Além disso, o referido Instituto desempenhou um papel importante na divulgação do Pacto Roerich pelo mundo (India, 2011).

Svetoslav, George e Nicholas em Naggar, 1934. Acervo do Museu Roerich de Nova Iorque, EUA.

Entre 1934 e 1935, George participou da expedição`a Manchúria (China) e ao interior da Mongólia, a qual foi liderada pelo proprio pai Nicholas Roerich. A pedido do Departamento Americano de Agricultura, a expedição teve o objetivo de coletar sementes de plantas resistentes  `a seca, em especial grama, que pudessem ser utilizadas nos estados do Texas, Oklahoma e no Kansas em períodos de estiagem (Drayer, 2005).

Além de cumprir plenamente com a tarefa, a expedição coletou 435 espécimes (entre sementes e plantas) e um herbário com 170 tipos diferentes de ervas. Com a ajuda de medicos-lamas, o Instituto URUSVATI publicou o primeiro atlas de ervas tibenas do mundo (Drayer, 2005; Stasulane, 2005).

Apo’s a morte de Nicholas Roerich, George e sua mãe, Helena Roerich, se mudaram para Kalimpong por causa da instabilidade política no Vale de Kullu. Na nova morada, George lecionou Indiano Clássico, Chinês e Tibetano e, em Gangtok, fundou o Instituto de Estudos Tibetanos e lá permaneceu até 1956, logo apos a morte de Helena em 1955 (India, 2011).

Em 1957, George retornou para a então URSS (União das Republicas Socialistas Soviéticas) e adquiriu a cidadania sovietica. O retorno à terra natal sempre foi um sonho de Nicholas e Helena Roerich, mas, infelizmente, nunca foi realizado. Na URSS, o George teve um papel fundamental na redefinição da imagem da Família Roerich, que, por causa de personalidades soviéticas influentes, foi durante muito tempo cruelmente distorcida. Com seu retorno, foi possível realizar exposições dos trabalhos de Nicholas Roerich, primeiramente em Moscou em abril de 1958, e posteriormente em São Petersburgo, Riga, Kiev e outras cidades (Russia, 2011).

Devido aos seus esforcos, a idéia de se criar um Museu Roerich foi levantada pela primeira vez em orgaos governamentais. Com esse objetivo, George concedeu 350 quadros de seu pai e outras 60 foram dadas pela Galeria de Arte de Novosibirsk. No entanto, ele não pode ver, em vida, o seu sonho. O Estado não transferiu as pinturas como exposição permanente para o Museu Russo. Muitas das obras nunca chegaram a publico e ainda estão armazenadas (Rússia, 2011).

George Roerich faleceu no dia 21 de maio de 1960 com 58 anos de idade, mas deixou para humanidade um valioso legado cientifico, cultural e humano, que, sem duvida, trouxe à luz a idéia de uma ciência que unifica ocidente com oriente e que pulsa para além das fronteiras …

George no seu escritorio em Naggar, India. Acervo do Museu Roerich de Nova Iorque, EUA.

Principais obras publicadas por George Roerich (India, 2011):

Tibetan Paintings. Paris, P. Geuthner, 1925.

Animal style among the nomad tribes of north of Tibet.  Seminarium Condacovianum, Prague, 1930.

Trails to inmost Asia.  New Haven, Yale University Press; London, Oxford University Press, 1931.

Dialects of Tibet: Tibetan dialects of Lahul. Tibeca; New York: Urusvati Himalayan Research Institute of Roerich Museum, 1933.

Textbook of colloquial Tibetan: dialect of central Tibet.  Calcutta, Gov. of West Bengal, Education Dept., Education Bureau, 1957.

Comparative Grammar Colloquial Tibetan.

Tibetan-Sanskrit-English-Russian Dicitionary (dicionario de 10 volumes publicado em Moscou, URSS, pela Academia de Ciências, Instituto de Estudos Orientais nos anos 80).

– Traducao para o ingles de um dos importantes livros de Tibetologia “The Blue Annals, stages of the Appearance of the Doutrine and Preachers in the land of Tibet” (Gos lo-tsa-ba Gzon-nu-dpal. The blue annals. Royal Asiatic Society of Bengal. Monograph series, v. 7, Calcutta, 1949-53).

Referencias Bibliográficas:

DECTER, Jacqueline.  Messenger of Beauty – the life and visionary art of Nicholas Roerich.  Park Street Pass, Rochester, Vermont, EUA, 1997.

EUA. Nicholas Roerich Museum. New York, NY, EUA.  Capturado no site  www.roerich.org.   Acesso 15 de dezembro de 2010.

DRAYER, Ruth. A.  Nicholas & Helena Roerich – The spiritual journey of two great artists and peacemakers.  Quest Books, Theosophical Publish House, EUA, 2005.

INDIA. International Roerich Memorial Trust – IRMT. Naggar, Vale de Kullu, Himachal Pradesh, Índia.  Capturado no site www.roerichtrust.org.  Acesso 09 de Janeiro de 2011.

RUSSIA.  International Center of the Roerichs.  Moscou, Rússia. Capturado no site       http://en.icr.su. Acesso 13 de Janeiro de 2011.

STASULANE, Anita.  Theosophy and Culture: Nicholas Roerich.  Interreligious and Intercultural Investigations, V. 8.  Centro Culture e Religione, Pontificia Universita’ Gregoriana, Roma, 2005.

Fotos cedidas gentilmente pelo Museu Roerich em Nova Iorque, EUA.

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